Depoimentos

Depoimento da Bióloga Bárbara Leão

Começo minha escrita perguntando o óbvio: o que poderia ser dito sobre esses adoráveis seres lambões, fieis e companheiros que já não tenha sido dito? Todos conhecem os cães, seria retórico relatar algo a respeito desses animais. Bem, talvez eu, como bióloga frustrada que sou, pois queria mesmo era ser veterinária, possa mostrar um outro ponto de vista dessa união de sucesso.

O cão foi o primeiro animal a ser domesticado pelo homem. Fósseis de cães e humanos, encontrados próximos, datam de 14 mil anos, mas, muito antes disso, há 400 mil anos, antes de nossos ancestrais se tornarem sedentários, lobos e humanos primitivos já partilhavam suas vidas. Ora, lobos e cães são muito parecidos, sendo que, qualquer uma das quase 400 raças de cães tem no máximo 0,2% de diferença genética com um lobo. Então, como os arqueólogos podem ter certeza que aquele lobo de 400 mil anos já não havia sido selecionado em termos comportamentais para o convívio com nossa espécie? Pergunta difícil e, provavelmente, sem resposta.

Apenas para instigar um pouco mais o leitor, colocarei aqui o conceito de espécie biológica: "Espécies são grupos de populações naturais potencialmente capazes de se cruzar e que estão reprodutivamente isoladas de outros grupos semelhantes". Entendendo esse dogma, o que você diria se eu falasse que as duas espécies, cão e lobo, podem se cruzar e procuram acasalamento, tanto na natureza quanto em cativeiro, gerando descendentes férteis? Chegou onde eu queria? Vamos ver. É isso mesmo! A diferença entre seus irmãos selvagens para qualquer poodle ou dachshund reside no fato desses últimos terem sido incrivelmente alterados em aparência e comportamento através de gerações de seleção artificial por nós. Portanto, cão e lobo são tão parecidos que a própria classificação deveria mudar e enquadrar o cão como uma subespécie de lobo. Imaginem só, nosso cãozinho seria um Canis lupus familiares, que emoção!

Talvez, no entanto, seja prudente falar em um tom mais sério e científico daqui para frente, pois o que está ocorrendo com nossos amigos não é fator para brincadeiras. A evolução, que pressupõe uma alteração nas freqüências gênicas e genotípicas ao longo das gerações, pode ocorrer por um único fator ou pela interação de fatores variados, a saber: cruzamentos provenientes de populações pequenas (deriva genética), mutação, migração (fluxo gênico), seleção e cruzamentos preferenciais. Esse processo pode ocorrer naturalmente nas diversas populações ou artificialmente, nesse caso com interferência direta do homem, visando, na maioria das vezes, a estabilização de genes ou conjunto de genes que influenciem uma determinada característica "vantajosa" comercial ou economicamente.

Será que os animais domesticados pelo homem, de raça bem definida, registro de sangue puro e que vivem a sombra de sua sociedade ainda são alvo de mecanismos evolutivos que ocorrem de forma natural? Esta é outra pergunta difícil de ser respondida pelo único e simples fato de que a interferência humana através de cruzamentos preferenciais pode atuar de maneira muito mais rápida do que qualquer outro mecanismo não induzido. Como pode um ser, extremamente adaptado a certas condições, viver em outras completamente diferentes sem o auxílio humano? Talvez isso até fosse possível, porém seria bastante improvável, estando, provavelmente, fadado ao insucesso.

É inegável que o "aprimoramento" das raças trouxe vantagens para o ser humano, principalmente no que diz respeito ao retorno financeiro, mas será que, para os cães, foi igualmente vantajoso? Com certeza não. Nós, aficcionados por nossos fieis companheiros, temos que estar cientes de que alguns criadores realizam cruzamentos altamente endogâmicos (irmão com irmão, inclusive de mesma ninhada, pai com filha, etc) em busca apenas do material, do rentável, sem se preocupar com os animais em si.

Essa prática, invariavelmente, criará uma geração de cães belos, mas pouco talentosos, o que acarretaria um declínio geral na saúde e utilidade dos animais. Muitas doenças, antes raras e que se tornaram comuns, já foram atribuídas à seleção artificial altamente endogâmica que os cães vem sofrendo ao longo dos anos. Isso é muito sério e perigoso para nossos amigos e pode acarretar na extinção futura de várias espécies.

Qualquer criador deve tomar cuidado com esse fato e, na medida do possível, abrir os cruzamentos de seus cães. Inegavelmente, quanto mais fechado endogamicamente, mais a possibilidade de herdabilidade de caracteres desejáveis, mas o dinheiro não é tudo em uma criação. Há, primeiramente, de se ter amor pelos cães e de se preocupar com o seu futuro. De que adianta ganhar exposições agora, se a raça não puder mais competir a longo prazo?

Quando resolvi trabalhar com cães, procurei analisar canis que possuíam a mesma filosofia que a minha. Isso não é fácil de acontecer na cinofilia, porém achei cruzamentos bem feitos e totalmente viáveis pelo ponto de vista biológico no D'Jaó Dachshund. Gostaria de parabenizar o senhor Carlos David Lobo Rezende pelo excelente trabalho feito no aprimoramento consciente de seus animais.

Bárbara Ferreira Dobbin Leão
Canil Lions'Pride, Brasília, DF