Histórico

Canil D'Jaó Dachshund
Sua Razão de Ser

Se observarmos bem, vamos verificar que todas as realizações do ser humano, sejam em que campo for, que tenham grandes ou pequenas dimensões, que possam ser consideradas de maior ou menor importância, de um modo geral nasceram impulsionadas por um ideal, ou por experências vividas por seus descobridores ou realizadores. Sobretudo, se tais experiências proporcionaram à pessoa ou ao grupo agradáveis lembranças. Seria, digamos, criações oriundas de saudável nostalgia.

O Canil D'Jaó Dachshund enquadra-se, perfeitamente, nessa linha. Ele surgiu em decorrência de uma longa relação de amizade, que vem de várias gerações, da família de seu fundador, Sr. Carlos David Lôbo Rezende com essa raça canina. Consta que seu trisavô, um engenheiro alemão, nascido em Rugenwald (hoje se chama Darlowoe e, esta parte da Alemanha foi dada a Polônia) - Clemens Anton Reinhard (Reinaldo) Ludwing Heinrich Von Krüger- , que veio de mudança com a família para o Brasil, contratado para trabalhar no traçado da Companhia Paulista de Estrada de Ferro e também no projeto de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, trouxe com eles o seu cachorro de estimação, um belo exemplar da raça Dachshund. Alguns anos mais tarde, o avô do Sr. Carlos David - Oscar de Rezende, de origem portuguesa - , quando servia o nosso Ministério da Agricultura, na cidade de Caldas - MG, tornou-se amigo do médico do lugar. O doutor havia trazido, de uma viagem feita à Alemanha, um casal de Dachshunds, de cor preta, da melhor procedência e com pedigree devidamente registrado. Da primeira cria que a fêmea teve aqui no Brasil, ele presenteou o amigo - avô do Sr. Carlos David - com um dos filhotes - uma fêmea, que recebeu o nome de Fidalga. Essa cachorrinha, pela sua excepcional capacidade de aprendizado e grande amizade que demonstrava a todos da família, proporcionando-lhes inesquecíveis momentos de descontração, viria a tornar-se, meio século mais tarde, a heroína de um romance que o pai do Sr. Carlos David- o escritor Paulo Rezende - , que nunca se esqueceu das alegrias que ela lhe proporcionou na sua infância e juventude, escreveu e publicou, dando título ao livro com o próprio nome de sua mascote "Fidalga". Essa obra teve muito boa aceitação nos nossos meios literários. Inclusive, tem sido indicado, como leitura paradidática, em diversos colégios de Goiás. Aliás, o escritor Paulo Rezende, quando se mudou para esta capital goiana, em 1954, e aqui logo se casou, fez amizade também com um médico, o saudoso Dr. Anuar Auad (professor da Faculdade de Medicina de Goiás e considerado nacional e internacionalmente um cientista na área da dermatologia). O referido médico, que era dono de um canil com vários e muito bem selecionados cães Dachshund, resolveu presentear o novo amigo com um casal de filhotes - o macho, vermelho, e a fêmea, preta, que receberam os nomes de Lorde e Fidalga II (este último em homenagem a outra Fidalga). Estes dois cachorrinhos, criados aqui em Goiânia, acabaram por tornar mais bonita e alegre a infância do fundador do Canil D'Jaó Dachshund. O Sr. Carlos David, hoje, também por uma questão de nostalgia, passou a dedicar-se à seleção do que há de melhor da raça em todo o Brasil. Nada melhor para comprovar esta afirmação, do que as dezenas de premiações que os exemplares de seu plantel têm recebido nos inúmeros concursos em que têm participado, nas maiores e principais capitais brasileiras e, até, no exterior (World Dog  Show 2001 em Portugal ) .Ainda , na Mundial de 2004 Esta exposição aconteceu na CBKC - Confederação Brasileira de Cinofilia em Abril de 2004.(Word Dog Show 2004) .

Carlos David, com 8 meses de idade, ao lado de seu primeiro Dachshund Lorde (1957)

Por considerarmos oportuno, reproduzimos algumas fotos, guardadas com muito carinho, dos cachorros aqui mencionados. Em uma delas aparece o cachorro Lorde, que saiu do Canil do mencionado Dr. Anuar Auad - ao seu lado está o próprio Dr. Carlos David, ainda com 8 meses de idade.

Para uma melhor complementação do que vimos afirmando, damos por bem mostrar, com a devida autorização do escritor Paulo Rezende, autor de "Fidalga", a capa desse seu livro, bem como fazer a transcrição de alguns trechos do texto:

"...nesse perfeito entrosamento em que se coloca o convívio do homem com o cão, talvez na mais bela das simbioses que o mundo conheça e que vem de data que se perde na noite dos tempos, resta ainda muita coisa para se descobrir e pesquisar..."

"...Valendo-nos do tamanho avantajado de nosso chão, tínhamos uma criação de galinhas bem numerosa, e o vizinho, pelo outro lado da cerca, também criava as dele."

"Por mais que procurássemos reforçar aquela divisa, sempre acabava surgindo, nas taquaras, um ponto qualquer em que as galinhas conseguiam passar - ora as nossas para o quintal do vizinho, ora as dele para o nosso."

Lorde saltando um obstáculo, provando a capacidade de adestramento dos Dachshund (1958).

"Este fato iria propiciar à Fidalga revelar-nos um instintivo e forte 'senso' de propriedade. Ela não aceitava, em absoluto, aquela mistura dos galináceos. Tendo aprendido, por si mesma, a identificar os que nos pertenciam, todas as vezes que no quintal nosso entrava alguma cabeça estranha, pacientemente, com o recurso de latidos e o jogo de corpo e corridinhas de um lado a outro, ia separando as intrusas, até conseguir fazê-las voltar por onde teriam entrado. Se o inverso acontecia, também ela passava por onde tinham ido as fujonas e, do outro lado, executava toda aquela sua artimanha de "pastoreio". Nos casos em que as galinhas se mostravam mais teimosas, invalidando sua tática, era o momento em que o seu trabalho se tornava mais interessante de ser visto. Agora, usando de maior energia, em corridas rapidíssimas, conseguia pegar e segurar a galinha ou o frango visado , com movimentos firmes e ligeiros das patinhas dianteiras. A seguir, usando os dentes com impressionante habilidade e cuidado, prendia-as pelas asas. Por mais que esperneassem ou barulho fizessem, eram assim mesmo levadas para o quintal respectivo- nosso ou do vizinho. O mais admirável nessa sua façanha, era o fato de a realizar sem nunca ferir as aves..."

"...A Fidalga, porém, passou a latir e a dar pequenos saltos bem perto do bico dessa embarcação, onde, por pequena corrente, era presa á margem. Dessa forma, estava impedindo o homem e as crianças de nela entrarem. Impaciente com isso, o cidadão deixaria explodir sua irritação, dirigindo-se a mim em tom bastante agressivo:

- Vamo lá garoto! Se você é o dono desta droga de cachorra, trate de tirá ela do meu caminho, antes que eu a mande lá pro meio do lago, com um belo dum ponta-pé!

- Faça isso não, moço. Não sei o que tá acontecendo com ela, mas já já tiro ela daqui... - respondi, entre aflito e amedrontado.

A Fidalga, contudo, não me ouvia, e, agora, parecendo zangada, com os dentes prendera-se à barra da calça desse canoeiro, ao tempo em que rosnava e a puxava com força. Isso aconteceu justamente quando o homem, indiferente aos seus latidos, ia mesmo entrar na canoa. Antes que ele, já praguejando, cumprisse a ameaça de jogá-la na água, consegui pegá-la e pretendia sair dali o mais depressa. Mas, a cachorrinha retorcendo-se toda, escapa-me das mãos e, rápida, salta para dentro da canoa, antes que o neurastênico indivíduo o fizesse. Lá dentro, sem tirar os olhos do banco do lado oposto da pequena embarcação, latia enfurecida, dando pequenos saltos de um lado a outro. Súbito, com incrível agilidade, salta para trás, mas perde o equilíbrio e cai na água. Exatamente neste momento, todos os que estávamos nas imediações, observando o que se passava, deixamos escapar um uníssono oh!!.. Saída de baixo do banco da embarcação, uma urutu havia dado o bote na Fidalga, que, ligeira, se safara incólume..."

"...Ao amanhecer de um Sábado de muito sol, estranhei que a Fidalga não tivesse ido ao nosso quarto para acordar a mim e aos meus irmãos, rosnando e puxando-nos as cobertas, como sempre fizera. Ao chegarmos à cozinha, para o café da manhã, aguardava-nos a mais agradável surpresa: a cachorrinha, no seu caixote, amamentava a linda ninhada, de seis filhotes. Quatro deles, pretos, como ela, e dois quase totalmente brancos.

Lorde (sentado) e Fidalga II, ao lado da tia do Sr. Carlos David (1957).

Que beleza de cena aquela: a levada e irrequieta Fidalga, tornava-se mãe zelosa, toda carinho com os filhotes... Após observá-la por considerável espaço de tempo, seria capaz de jurar que se sentia orgulhosa da sua bonita ninhada.

A nós, da casa, embora parecendo-nos "preocupada" e sempre muito atenta, permitia que pegássemos os cachorrinhos. Mas, os meninos da vizinhança, que a toda hora chegavam para "visitá-la", não deixava que se aproximassem da sua "toca"...Às vezes, ao pegarmos os filhotes, fingíamos esquecer um deles no chão da cozinha, apenas para experimentar a sua reação. A mascote, aflita, deixava o caixote com modos zangados e, muito cuidadosa, com os dentes suspendia-o pelo couro dorsal, levando-o de volta ao ninho. Fazia-o com tal delicadeza que, ao cãozinho aquilo deveria representar um passeio, pois não demonstrava o menor sinal de que isso lhe causasse dor..."

"...Preocupado com o que ouvia, eu me perguntava: "Alemães, inimigos?...A minha mascote não é filha de cães vindos daquele país?...É...isso poderá pôr em risco a sua segurança, pois tenho sempre alardeado ser ela Dachsund ou Bassê-alemã." Dentro daquele meu raciocínio de criança, pensava no fato de que, já antes daqueles incidentes internacionais envolvendo a Alemanha, aconteceu de a Fidalga ter levado pedradas, pontapés e até sido vítima de envenenamento. O que não poderia suceder-lhe agora, na sua condição de quase estrangeira, com toda aquela gente tão exaltada ? Só de pensar nisso, chegava a sentir um calafrio na espinha.

Nesse estado de cisma, tomei uma decisão, embora temendo pudesse ser tarde para que surtisse o efeito desejado: não tornaria a falar sobre a origem "ariana" da Fidalga. Caso insistissem comigo, diria simplesmente tratar-se de uma cachorra "paqueira", como, aliás, muita gente costumava afirmar ser a sua raça. Em casa, pedi a todos para agirem da mesma forma. Sem que tenham entendido bem os meus cuidados, acabei tornando-me alvo de muitos e bem humorados gracejos..."

A Fidalga do romance, com 15 anos, juntamente com o galo Furacão, personagem do livro "Duas Lutas" do escritor Paulo Rezende.

..."- Vocês estão brincando! O desfile é para cachorros de raça, e não vira-latas.

- Vira-lata o quê ?! O senhô num entende nada de cachorro, não? - indagou, indignado, o filho do ferroviário.

- Deixa pra lá! Para que vocês entrem, é preciso que estejam com seus pais e que possam provar que esses bichos, aí, são mesmo de raça.

Nisso, de modo áspero, interveio o mais velho:

- E que vocês também apresentem os comprovantes de inscrição! E agora afastem-se, que estão impedindo a outras pessoas de entrar!

Embora revoltados com o pouco caso e tamanho desaforo, tivemos mesmo que nos afastar e ficamos do outro lado da rua, sem saber bem o que fazer.

Automóveis e mais automóveis iam chegando, e deles desciam grã-finos, trazendo cães das mais variadas raças. Os homens, vestindo alinhadíssimos ternos e de chapéus sempre na cor da própria roupa. As mulheres, de vestidos bonitos, carregadas de jóias e usando chapéus também, mas, estes, de esquisitos modelos. Aquilo me estava fazendo lembrar o que eu tinha visto em um jornal do cinema, mostrando o pessoal chegando a um Grande Prêmio de corrida de cavalos..."

Por
Canil D'Jaó Dachshund
Agosto de 2001

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Na foto: Ch. GCh. ChPan. ChInt. BISS Reich SSV Von Bose Hunde e Ch. GCh. ChPan. Guaiara SSV Von Bose Hunde.

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